Mãe do forcado Manuel Trindade expressa dor e revolta após a morte do filho: “Aguento a dor, mas não aguento a insensibilidade”

A dor de perder um filho é indescritível, e para Alzira Trindade, mãe de Manuel Trindade, a dor se intensificou não apenas pela perda do seu “menino”, mas pela insensibilidade e crueldade de algumas reações nas redes sociais após a tragédia que levou a vida do seu filho.
Manuel Trindade, de 22 anos, era forcado no grupo dos Amadores de São Manços, em Évora, e perdeu a vida no sábado, 23 de abril, após ser gravemente ferido durante uma pega no Campo Pequeno, em Lisboa, na noite de sexta-feira, 22 de abril. O jovem foi colhido pelo touro da ganadaria Vinhas com enorme violência, sendo transportado de urgência para o Hospital de São José, mas infelizmente não resistiu aos ferimentos, falecendo na manhã seguinte.
A tragédia gerou uma onda de comoção no país, mas o sofrimento de Alzira Trindade foi intensificado por comentários insensíveis feitos nas redes sociais. O Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) e seus seguidores foram criticados por manifestarem, de forma fria e desumana, regozijo com a morte de Manuel Trindade. Em um ato de desabafo, Alzira decidiu escrever uma carta aberta àqueles que se mostraram “contentes com a morte” do seu filho, tentando dar voz à dor de uma mãe e esclarecer o que muitos não compreendem.

“Dirijo este desabafo ao PAN e seus seguidores: Venho agradecer todos os vossos aplausos, todos os risos e regozijos com a morte do meu filho. Vocês, conheceram-no para ficarem contentes com a sua morte? Sabem se ele gostava de animais? Por acaso, SIM! Sempre tivemos cães e faziam parte da nossa família, dormiam com ele, quando ele chegava a casa, riam-se para ele… os animais sabem quem são as boas pessoas!”, escreveu Alzira, emocionada e indignada com as reações hostis.
Alzira explicou que o seu filho fazia parte de um grupo de forcados que sempre teve como princípio tratar os touros com respeito e arte, nunca fazendo mal ao animal. Ela questionou a hipocrisia de muitas críticas direcionadas ao seu filho, perguntando porque não há a mesma revolta com outros desportos de risco, como os pilotos de Fórmula 1, pugilistas ou esquiadores, que também colocam suas vidas em risco.
Ela continuou, num tom de desabafo e revolta: “O meu filho pertencia a um grupo de irmãos que envergam uma jaqueta com honra, com bravura. Estes grupos nunca fizeram mal a um touro, lidavam com ele, com arte! O meu filho nunca vos incomodou para vocês dizerem ‘já nos livramos de mais um’, ‘este já está arrumado’. Na vossa perspetiva o meu filho não é um animal. Mas é! UM ANIMAL RACIONAL!”

A mãe de Manuel também aproveitou a oportunidade para, de forma dolorosa, fazer uma última homenagem ao filho. “Ele, esse animal, foi para dador de órgãos (ainda bem que já nos livramos deste) e assim ajudar 7 vidas de animais racionais! Olhem, celebrem, ele vai continuar vivo em 7 pessoas para vos incomodar. Que mau que ele era, o ANIMAL RACIONAL”, concluiu, num tom de profunda dor e revolta.
Alzira terminou o seu desabafo agradecendo, de forma irônica, pelas “condolências e apoio com o vosso carinho ‘conhecido’ SE TIVEREM CORAGEM!” O desabafo da mãe de Manuel Trindade expôs a dor imensurável de perder um filho, mas também a indignação diante da insensibilidade e crueldade de algumas reações públicas.
A morte de Manuel Trindade deixa uma enorme lacuna no coração de sua família e amigos, mas também levanta questões importantes sobre o respeito e a dignidade, tanto para com os seres humanos como para com os animais, e sobre a forma como lidamos com a dor alheia, especialmente nas redes sociais.
